terça-feira, 8 de abril de 2014

MANEIRAS INCOMUNS DE MELHORAR SUA MEMÓRIA E CRIATIVIDADE

Como fixar memórias em seu cérebro? (Foto: Flickr/ Creative Commons)

COMO FIXAR MEMÓRIAS EM SEU CÉREBRO? 
(FOTO: FLICKR/ CREATIVE COMMONS)


Você já esqueceu o nome de pessoas que conhece há muito tempo (enquanto estava conversando com elas)? Já esqueceu o nome de objetos e de lugares, mesmo que sejam óbvios (elevador? fita adesiva)? Sempre esquece o fim de piadas? Pois você não está sozinho. E todo mundo que tem memória ruim sabe como é desconfortável ter que perguntar para os colegas “qual é aquela palavra que usamos para descrever (insira alguma coisa aqui)?”. A dificuldade de lembrar torna nossas conversas frustrantes e o processo criativo mais frustrante ainda. Mas há maneiras de melhorar essa situação - e nem todas são “manjadas”.
Claro, prestar atenção em coisas importantes de forma “exclusiva”, sem se distrair com celular, com o barulho do vizinho ou com o cachorro funciona. Mas nem sempre é algo realista de se fazer. Portanto, listamos X maneiras incomuns de melhorar a sua memória - que, segundo a ciência, funcionam de verdade.
Tome nota - afinal, se você está lendo essa lista, pode precisar de registros mais fortes do que suas lembranças:
Durma bem Um bom período de sono é importantíssimo para consolidar as memórias do que você viveu durante o dia. Quem não consegue dormir bem não apenas tem mais problemas em lembrar do que passou como também tem mais chances de criar falsas memórias - “lembrar” de coisas que nunca aconteceram.
Tome café Muitos estudos relacionam a cafeína com a memória, mas a maioria não teve resultados considerados conclusivos. No entanto, há um estudo que provou que tomar uma pílula de cafeína imediatamente após aprender algo ajuda na fixação dos novos conhecimentos em sua mente. Então, após uma aula ou reunião, talvez valha apelar para o recurso. Ou, se você curte café, uma boa dica é deixar o cafézinho não para depois do almoço, mas para depois de reuniões importantes, ou logo pela manhã. Só não vale tomar café antes de dormir, certo? Já falamos que ficar muito tempo sem descansar corretamente pode prejudicar a sua memória.
Alecrim, alecrim dourado… Pesquisadores relacionam o aroma do alecrim com um aumento nas funções cognitivas, especialmente na recuperação de memórias. Se você já estava pensando em trazer uma plantinha para sua mesa, que tal um vaso de alecrim?
Mais azul na dieta Mirtilos (ou blueberries) não são tão comuns no Brasil. Mas talvez valha a pena incluir a frutinha em seus lanches - um estudo que acompanhou enfermeiras descobriu que aquelas que comiam mais mirtilos passavam a sentir a perda de memória natural da idade 2,5 anos depois do que aquelas que não tinham a fruta em suas dietas.
Medite Ao acalmar seu corpo e mente, você bloqueia influências externas e consegue se concentrar mais naquilo que importa - nos estudos, no trabalho, no que for.
Dizem que a gente sabe pouco sobre o cérebro. Pode ser verdade, mas cada vez mais estudos na área de ciências sociais e psicológicas ensinam coisas que podem ser aplicadas no dia a dia e podem melhorar o desempenho do cérebro nas tarefas cotidianas. Algumas fazem parte do senso comum, outras vão justamente contra ele. Dá uma olhada:
Cansado, você é mais criativo

Às 2h da manhã, depois de um longo dia de trabalho, você deita a cabeça no travesseiro e fecha os olhos. Daí, naqueles 10 a 15 minutos em que seu cérebro está desligando, você tem ideias incríveis: um texto que gostaria de escrever, um desenho, um projeto novo. A maioria das pessoas acaba sucumbindo ao sono, não anota nenhuma das ideias que teve e, no dia seguinte, esquece tudo. Você já deve ter passado por isso, né?
Quando você está cansado, seu cérebro funciona assim, meia boca. E isso é ótimo pra sua criatividade, porque ele se torna incapaz de filtrar distrações e se focar muito em uma coisa só. E isso, pro trabalho criativo, é excelente, já que to deixa mais aberto a novas ideias, inspirações e conexões improváveis.
Esse texto da Scientific American fala um pouco sobre isso: “menos focados, a gente tende a considerar uma gama mais extensa de informação [quando está criando]”, diz o artigo.
Sonecas FTW!
Quem não ama uma soneca? Claro que é preciso saber tirar o melhor delas (sob o perigo de acordar mais cansado do que quando foi deitar), e para isso, vale seguir esse infográfico aqui. Mas o importante é saber que sonecas melhoram a memória de acordo com esse estudo e te ajudam a solidificar as coisas que você aprendeu (ou seja: jamais dispense uma sonequinha depois daquela tarde de estudos!).
Meditação e neurônios
Você já tentou meditar? Não acontece de um dia para o outro, verdade. Ninguém consegue esvaziar a cabeça tão rápido assim. É preciso treino, e nada de cobranças: seja generoso com a sua cabeça apinhada de estímulos e informação. Mas uma vez que você consegue, a coisa se torna viciante.
O motivo é simples. Há uma porção de estudos comprovando que meditação afeta o cérebro pra melhor. Meditando, você melhora sua capacidade de concentração, diminui a ansieade, fica mais criativo, mais generoso, menos estressado e - pasme! - até aumenta a quantidade de matéria cinza no seu cérebro, o que se traduz em mais emoções positivas, estabilidade emocional e concentração.
Você é senhor do (seu) tempo
Todos nós, frequentemente, nos incomodamos com as impressões que temos da passagem do tempo, ora rápido demais, ora se arrastando. Cientistas descobriram que é perfeitamente possível manipular o cérebro para entender determinados períodos de tempo como tendo passado mais rapidamente ou devagar: se você quiser uma impressão de que “esse mês voou”, basta não fazer nada de novo. O inverso também funciona.
O cérebro demora um tempo até processar novas informações, porque essa percepção de tempo é controlada por várias áreas diferentes. Quanto mais coisas novas você fizer, mais tempo deve demorar até que seu cérebro organize isso, dando a impressão que o tempo passou mais devagar.
Permita-se ter muitas ideias ruins:
só assim virão as boas
Sabe quando você não se permite criar por insegurança de que suas ideias sejam ruins? Deixe isso de lado. Você só poderá ter boas ideias se deixar as ideias más fluírem pelo seu cérebro. Um cientista da Universidade de Pittsburgh descobriu que é tudo uma questão de proporção. “Você pode maximizar a chance de ter ideias expecionais não necessariamente aumentando a qualidade média das ideias, mas aumentando a variedade da qualidade das ideias. Iniciativas criativas bem sucedidas e sustentáveis têm mais a ver com um grande fluxo de ideias, e não com uma capacidade de uma média mais alta de boas ideias o tempo todo”, eles detectaram.
Ou seja: deixa a vergonha de lado na hora de criar. Você precisa das coisas ruins para que as boas apareçam na sua cabeça.

Descubra a ciência por trás da soneca


Quanto tempo deve durar sua soneca?
Você já deve ter reparado que certas sonecas te deixam mais alerta e bem disposto, enquanto outras parecem te fazer sentir mais cansado ainda. O motivo está nesse infográfico preparado pelo LifeHacker. É o guia para a soneca perfeita.: com ele, você pode identificar o motivo da sua soneca e o tempo ideal para atingi-lo:
Sonecas são uma maneira eficiente de reiniciar seu cérebro e de acordo com a Dra. Sara Mednick, que escreveu o livro “Take a nap! Change your life!” (“Tire uma soneca! Mude sua vida!” em tradução livre), 10 a 20 minutos de soneca são ideais para voltar ao trabalho com a mente mais afiada, 60 minutos ajudam a fixar memórias recém-aprendidas e podem fazer milagres, no meio do dia, pra ajudar quem está estudando pra uma prova ou concurso, e um sono de 90 minutos, que envolve um ciclo de sono completo, ajuda na criatividade e na inteligência emocional.
E se você não lê em inglês, o infográfico avisa: sonecas de 30 minutos podem não ser uma boa ideia. Você vai acordar meio grogue e pode demorar um pouco mais do que deveria pra ficar alerta. Na dúvida, vá com a de 20 minutos ou a de 60. Sem meio termo.
Fonte:http://revistagalileu.globo.com/Life-Hacks/noticia/2014/04/5-maneiras-incomuns-de-melhorar-sua-memoria.html
Como fixar memórias em seu cérebro? (Foto: Flickr/ Creative Commons)

sexta-feira, 14 de março de 2014

QUER SER MAIS INTELIGENTE ?: CORRA !

 (Foto: Renato Faccini)

Quer ser mais inteligente? Corra!


Quem achou que ia cochilar na palestra do psiquiatra John Ratey ficou decepcionado. Ele fez seu público, composto por 1.100 dos principais educadores do mundo, exercitar-se ali mesmo. “Corremos sem sair do lugar por 20 segundos, depois descansamos 10 segundos e então repetimos isso mais quatro vezes”, diz. Parece um começo estranho para a apresentação de um professor da Escola de Medicina de Harvard numa conferência sobre educação. Mas Ratey sabia que esse “aquecimento” jogaria a seu favor: todos ficariam mais atentos e talvez até guardassem melhor o que estavam prestes a ouvir. Na verdade, foi um início perfeito para uma palestra sobre como usar nossos corpos para melhorar nossas mentes.
A ideia de que os exercícios físicos reduzem o risco de doenças cardíacas, de certos tipos de câncer e até previnem contra diabetes tipo II é bem aceita entre os cientistas. Só que estudos mostram que os exercícios também podem turbinar a mente. Não estamos falando apenas daquele bem-estar vago sugerido por ditados como “mente sã, corpo são”. O que Ratey e outros pesquisadores estão descobrindo é que a atividade física tem profunda influência em uma série de capacidades cognitivas que definem seu QI.
Os primeiros estudos a sugerir essa ligação vêm dos anos 1960, mas foi na década de 1990 que Fred Gage, geneticista do Salk Institute (EUA), descobriu que fazer exercícios parecia estimular o crescimento de novos neurônios em camundongos. Na mesma época, o psicólogo Arthur Krame, da Universidade de Illinois, publicou um artigo na revista Nature demonstrando que adultos antes sedentários, ao seguir um plano de exercícios de seis meses, melhoravam o desempenho em testes mentais que exigiam controle executivo. Esse controle é o tipo de concentração que nos ajuda a alternar tarefas sem cometer erros, fundamental para a inteligência.
Desde então, várias pesquisas confirmam e aprofundam esses resultados. Boa parte examina idosos, cujas habilidades mentais tendem a decair com o passar dos anos. Um grande estudo da Universidade de Munique, por exemplo, acompanhou 4.000 idosos durante dois anos. Aqueles que raramente faziam atividades físicas tiveram mais do que o dobro de chance de sofrer algum comprometimento cognitivo se comparados aos que faziam jardinagem, natação ou ciclismo algumas vezes por semana. Outro grande estudo publicado no periódico The Lancet, que seguiu um grupo de quase 1.500 pessoas durante 20 anos, mostrou que esses efeitos podem ser duradouros. Os indivíduos que se exercitavam pelo menos duas vezes por semana já adultos tinham menos chance de desenvolver demência quando passavam dos 60 anos. Os resultados são um alerta para os preguiçosos: formar hábitos saudáveis hoje pode atrasar o declínio mental décadas no futuro.
Pesquisas com jovens são mais raras, mas há evidências de que as atividades físicas fortalecem a saúde cerebral em todas as fases. Uma delas analisou crianças de 5 a 14 anos em escolas públicas na cidade de Nova York. Em testes cognitivos, os 5% de alunos que estavam mais em forma tiveram notas 36% superiores que o grupo menos em forma. Outro levantamento sobre registros de condicionamento físico de 1,2 milhão de homens que se alistaram nas forças armadas da Suécia entre 1950 e 1976 chegou a uma conclusão semelhante. A pesquisa, que seguiu os dados dos jovens dos 15 aos 18 anos, indicou correlação entre boa forma física na adolescência e o melhor desempenho em testes de inteligência e habilidades cognitivas aos 18 anos.
TER O HÁBITO DE SE EXERCITAR HOJE PODE ATRASAR O DECLÍNIO MENTAL E PREVENIR A DEMÊNCIA DÉCADAS NO FUTURO (Foto: Renato Faccini)
SACUDIDA NO CÉREBRO

O conjunto desses estudos está transformando o modo como vemos a relação entre corpo e mente. “Quando comecei a estudar o assunto, achei que houvesse um cérebro saudável básico e as atividades físicas pudessem melhorá-lo”, conta a neurologista Megan Herting, da KeckSchoolof Medicine, em Los Angeles. “Mas agora penso o contrário: as crianças com altos níveis de atividade representam o nível básico de como o cérebro deve ser ativo.” A conclusão de Megan,que estuda o impacto dos exercícios nas crianças, é que eles não são um fator que incrementa a cognição normal, mas são uma condição necessária para que ela exista.
O que está por trás dessa relação? “As pessoas gostam muito da euforia provocada pela corrida e da clareza mental que sentimos com uma rotina de exercícios”, afirma Brian Christie, neurocientista da Universidade de Victoria, no Canadá. O estresse pode inibir as respostas cerebrais na resolução de problemas, impedindo que o órgão faça as conexões necessárias. “Se você sai para caminhar, seus níveis de estresse geralmente despencam”, diz Christie. O fenômeno pode explicar em parte por que as crianças mais saudáveis também têm melhor desempenho nos estudos.
Os exercícios provavelmente contribuem com mudanças mais permanentes. Por ser um dos órgãos que mais consome energia, o cérebro depende de uma dieta constante de nutrientes e oxigênio, supridos por uma complexa rede de vasos sanguíneos. As atividades físicas encorajam a construção dessas linhas de suprimentos e também facilitam sua manutenção. Matthew Pase, da Universidade Swinburne, na Austrália, descobriu que a pressão alta, especialmente nas grandes artérias centrais que alimentam o cérebro, pode causar falhas no desempenho cognitivo, talvez em consequência de danos aos vasos. Como a atividade física regular reduz a pressão arterial, ela deve proteger o cérebro desses problemas no fornecimento de alimento. Outra forma mais indireta de benefício é o fato de que indivíduos mais atléticos têm menos risco de diabetes e obesidade, problemas que podem gerar um ciclo de reações que contribui para o acúmulo das placas cerebrais em pacientes com Alzheimer.
Quando falamos de mudanças dentro do cérebro, as atividades físicas provocam a liberação de neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina, os mesmos estimulados pelos antidepressivos e medicamentos para hiperatividade. Ou seja, uma corridinha na esteira ou uma pedalada na bicicleta ergométrica pode se parecer com tomar uma mistura de Prozac com Ritalina, explica Ratey. Os exercícios também estimulam a produção de substâncias que regulam o desenvolvimento do cérebro, os fatores de crescimento. Ratey chama essas substâncias de “adubo cerebral”, pois elas criam um ambiente no qual os neurônios podem prosperar e promove a formação de novas conexões.
"PRECISAMOS QUE AS CRIANÇAS SE MEXAM TODOS OS DIAS. ALÉM DE FAZER SENTIDO EM TERMOS DE SAÚDE, TAMBÉM AUMENTA SUAS NOTAS NAS PROVAS" (Foto: Renato Faccini)
 
EVOLUÍMOS PARA CORRER

As origens dessa conexão entre corpo e mente provavelmente estão em uma época remota de nossa evolução. “A atividade física é uma parte importante de nossa história evolucionária. Todo nosso sistema fisiológico se baseia em ser atlético”, afirma David Raichlen, antropólogo biológico da Universidade do Arizona. Talvez a capacidade cerebral tenha emergido para melhorar a busca por alimentos, ele sugere. Quando os animais procuram comida, o aumento de fatores de crescimento no cérebro leva ao desenvolvimento de neurônios e sinapses, o que ajuda a lembrar o caminho para voltar à fonte de comida mais tarde.
Raichlen lembra que os seres humanos têm resistência atlética muito superior à dos outros primatas. Em outras palavras, ninguém jamais veria um macaco correndo uma maratona. À medida que se adaptaram a corridas de longa distância em busca de alimentos, nossos ancestrais teriam vivenciado uma injeção constante dos fatores de crescimento, o que fez os neurônios e sinapses se desenvolverem. É possível que o resultado tenha sido uma explosão na inteligência, defende Raichlen. Ou seja, que parte da razão para a inteligência dos seres humanos esteja no nosso esforço físico.
Independentemente do papel dos exercícios na evolução, suas consequências para o cérebro já começam a ser levadas em consideração. O Departamento de Saúde dos EUA está encorajando as escolas a oferecerem mais aulas de educação física e o Instituto de Medicina do país recomenda que os alunos das séries iniciais façam 30 minutos de exercício por dia e os mais velhos 45 minutos. “Precisamos que as crianças se mexam todos os dias. Além de fazer sentido para a saúde, também aumenta suas notas nas provas”, diz Ratey.
O mesmo princípio se aplica à população mais velha. Exercitar-se é uma alternativa aos jogos de inteligência. Kramer diz que ainda não há evidências suficientes que comprovem o benefício de jogos como palavras cruzadas, já que as melhorias conquistadas não parecem afetar o cotidiano. Por outro lado, os novos programas de exercício, conduzidos durante seis meses ou um ano, tendem a acelerar a velocidade de processamento cerebral e melhorar a atenção e a memória em diversas atividades. Combinar as duas abordagens pode ser a opção ideal.
 (Foto: Renato Faccini)
 
 (Foto: Renato Faccini)

Fonte:http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/02/quer-ser-mais-inteligente-corra.html

6 FORMAS COM QUE A TECNOLOGIA AFETOU OS NOSSOS CÉREBROS

Neuroplastia digital (Foto: Flickr/Creative Commons)

6 formas com que a tecnologia afetou nossos cérebros


Nossos cérebros tem uma habilidade chamada neuroplastia - basicamente, é a capacidade do órgão de se adaptar de acordo com nossas necessidades e experiências. E a ciência conseguiu provar que a nossa forma de vida, dependente da internet e de gadgets, modificou o funcionamento de nossos sistemas nervosos.
Calma. Antes que você pense que vamos discorrer sobre os malefícios da web em relação a nossa capacidade de atenção, ou sobre os benefícios que apps trouxeram para organizar nossas vidas, tópicos ainda controversos, listamos uma série de pesquisas que provam como a tecnologia alterou os nossos cérebros - sejam mudanças boas ou ruins. Confira:

As cores de nossos sonhos mudaram

E isso é culpa da TV. Da mesma forma que, há alguns anos, também era culpa da TV que muita gente tenha passado a sonhar em preto e branco. Explicamos - antes da popularização da telinha, nossa psique era influenciada pelo mundo ‘real’. Quando passamos a dedicar boa parte do dia aos programas da televisão, eles também começaram a deixar impressões em nosso subconsciente. A maior prova é um estudo da Universidade de Duke, que analisou registros de sonhos de dois grupos: adultos acima de 55 anos, que passaram anos de suas vidas vendo TV em preto e branco, e pessoas mais jovens, já nascidas após a era do Technicolor. O primeiro grupo tinha uma tendência maior a ter sonhos em p&b. Já o segundo, tinha sonhos mais coloridos. A Associação de Psicologia Americana reproduziu o experimento e comprovou seus resultados.

Sofremos com FOMO

Você certamente já ouviu falar da síndrome chamada de “FOMO” (sigla para Fear of Missing Out, traduzido livremente para algo como ‘medo de ficar por fora’), que afetaria as gerações mais novas, nascidas na era da informação. O New York Times define o FOMO como ‘uma mistura de ansiedade, inadequação e irritação que surge quando se está por fora das mídias sociais’. Basicamente, como você fica ao passar alguns dias sem acessar o Facebook, ou quando esquece o smartphone em casa. Outro ‘sintoma’ é quando estamos em casa, relaxando, vendo alguma série no Netflix e temos aquela urgência de fazer outra coisa, de que deveríamos estar em outro lugar, falando com outras pessoas. Ou mesmo quando estamos em uma festa e sentimos essa angústia que nos informa que ‘podíamos estar gastando nosso tempo de outra forma’. A teoria é que essa sensação é causada por horas e horas olhando nossos contatos fazerem as coisas mais incríveis em imagens e posts no Instagram e no Facebook - e nos esquecemos que momentos de tédio fazem parte da vida.

Vibração fantasma

“Opa, o que é isso? Meu celular vibrou? Será que recebi uma mensagem? Ou um GIF no Relay? Tem alguém me ligando?”. Você tira o celular do bolso/bolsa e percebe que não - o celular não tem nenhuma notificação. O que acontece é que nosso cérebro está programado para achar que os smartphones estão vibrando. Não chega a ser incômodo, mas, se pararmos para pensar, o fenômeno é muito estranho. Um estudo publicado pelo Computers and Human Behavior descobriu que 89% de 290 estudantes universitários sentiam as vibrações fantasma pelo menos uma vez a cada duas semanas.

Temos mais dificuldade de dormir

O que você faz nos minutos que antecedem o sono? Lê um livro no iPad? Assiste à TV? Ou vê Parks and Recreation no Netflix com o notebook no colo? Cientistas acreditam que a exposição às telas durante a noite bagunça o nosso organismo e dificulta o sono. A ideia é que a luz emitida pelos eletrônicos faz com que o nosso corpo ‘acredite’ que ainda estamos sob a luz do dia. Ou seja, ainda não seria a hora de dormir. “E por que isso não acontece desde que lâmpadas foram instaladas nas casas de nossos bisavós e avós?”, você pode se perguntar. A suspeita recai sobre o tipo de luz emitida pelas telas, que é mais azulada e ‘parecida’ com a luz do dia.

Temos mais habilidades visuais

Um estudo de 2013 indicou que games como Halo e Call of Duty (tiro em primeira pessoa), aumentam nossa capacidade de tomar decisões rápidas e estimulam jogadores a verem mais em menos tempo. Isso faz com que esses gamers tenham mais noção de espaço - coisa que pode ser útil não apenas no mundo virtual. Eles também conseguem discernir mais facilmente objetos em situações com pouca iluminação.

Os reis do multitask

Jogos de estratégia como Starcraft aumentam a ‘flexibilidade cognitiva’ do cérebro. Isso quer dizer que conseguimos alternar tarefas mais rapidamente, ou fazer duas (ou mais) coisas ao mesmo tempo com facilidade - a invejada capacidade de multitask. Estudos apontam que o efeito dos games é ainda mais pronunciado em pessoas mais velhas.

Artigo inspirado por esta lista do Mashable


Fonte:http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Neurociencia/noticia/2014/03/6-formas-com-que-tecnologia-afetou-nossos-cerebros.html?folder_id=171

quarta-feira, 12 de março de 2014

UNIVERSOS PARALELOS : DA FICÇÃO À TEORIA QUÂNTICA


Para os autores de ficção, desde Jorge Luis Borges e seu conto clássico "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam" até episódios da telecinessérie Jornada nas Estrelas ou o recente filme A Bússola Dourada, o tema dos universos paralelos exerce um eterno fascínio. Afinal, quem resiste à ideia de que, num outro plano, pode existir um outro eu vivendo uma vida diferente desta aqui? O que muita gente não sabe é que a hipótese não se restringe à ficção: a ciência anda namorando-a há um bom tempo e leva-a cada vez mais a sério.
Como não poderia deixar de ser, a área científica que aloja essa ideia é a física quântica - aquela que estuda as leis do mundo subatômico, as quais reduzem tudo a probabilidades e cujas esquisitices incomodaram ninguém menos do que Albert Einstein. Os mundos paralelos emergiram na academia como solução a uma das charadas quânticas mais conhecidas: a do gato de Schrödinger.
Nesse desafio, criado pelo físico austríaco Erwin Schrödinger em 1935, um gato é colocado numa caixa selada com um contador Geiger, um frasco de veneno e um átomo radiativo que tem 50% de chance de desintegrar dentro de uma hora. Se o átomo se desintegra, o contador Geiger percebe e aciona um mecanismo que quebra o frasco de veneno, levando o gato à morte. De acordo com a teoria quântica, ao final daquela hora o átomo deve se encontrar num estado superposto de desintegração e de não desintegração. Ou seja: o gato está ao mesmo tempo num estado insólito, tanto de vivo quanto de morto.
Schrödinger propôs seu enigma como uma forma de sublinhar como a teoria quântica pode desafiar o senso comum. De fato, como alguém pode estar vivo e morto ao mesmo tempo? Os cientistas puseram suas mentes para trabalhar no assunto e, de início, pensou-se que a solução era forçar o mundo quântico a decidir-se por uma das soluções, abrindo a caixa e observando seu conteúdo. Essa solução é conhecida como interpretação de Copenhague - a opção considerada pelo físico dinamarquês Niels Bohr que destaca o papel do observador do fenômeno. Detalhe frágil dela: os pesquisadores teriam de monitorar o tal gato por uma hora.
Em 1957, o norte-americano Hugh Everett III, então aluno da Universidade de Princeton, propôs uma nova perspectiva para o enigma. Segundo ele, a matemática da teoria quântica realmente descreve a realidade e, se suas equações desembocam em resultados diferentes, todos eles podem ser concretizados em algum lugar. A pergunta óbvia, nesse caso, era: onde?
Como a ideia parecia maluca demais e Everett não continuou a pesquisar nessa área (ainda antes de seu ensaio ser publicado, ele aceitou um convite para trabalhar na indústria de armamentos), o tema caiu rapidamente no esquecimento. Em 1970, porém, outro norteamericano, Bryce DeWitt, da Universidade do Texas, reviu o trabalho de Everett e concluiu que todos esses resultados só poderiam ocorrer em universos paralelos. De acordo com DeWitt, tais universos coincidiriam com o nosso em termos espaciais, mas estariam isolados, e em consequência teriam uma interação muito pequena com nosso universo. A hipótese ganhou o rótulo de "interpretação de muitos mundos": cada resultado possível corresponde ao surgimento de um novo universo. No caso do gato, em um universo ele esbanja saúde, mas em outro está definitivamente morto.
A revisão de DeWitt passou a ser considerada mais palatável para os físicos quando estes começaram a aceitar que, para elaborar a teoria unificadora de todas as leis da natureza - aquela que reunirá a relatividade de Einstein à quântica -, seria preciso haver outras dimensões além das três comuns. Mesmo assim, a ideia de universos paralelos na ciência ainda demoraria mais algumas décadas para deslanchar.
Num universo, o gato da charada de schrödinger esbanja saúde; em outro, está morto

Onze dimensões para explicar tudo
O avanço nos instrumentos usados para pesquisar o reino quântico começou a possibilitar investigações cada vez mais acuradas dessa área, e nos anos 1990 uma descoberta mexeu com a interpretação de Copenhague: segundo a pesquisa, não é propriamente o observador que "decide" qual estado vai prevalecer entre os vários possíveis, mas as interações com o ambiente do sistema observado (denominadas descoerência). A novidade complicou ainda mais a já difícil busca de uma evidência experimental para a teoria de muitos mundos de Everett.
Em 1995, um estudioso da teoria unificadora, o norte-americano Edward Witten, da Universidade de Princeton, propôs que todos os eventos observados poderiam ser explicados em um grande cenário com 11 dimensões - o chamado multiverso. As elaborações de Witten ficaram conhecidas como "Teoria-M". Como as dimensões do multiverso seriam diferentes dos mundos paralelos de Everett, parecia que o assunto chegara novamente a um beco sem saída.
Três anos depois, porém, o físico suecoamericano Max Tegmark, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), deu uma nova contribuição ao estudo dos mundos paralelos ao voltar à experiência do gato de Schrödinger e colocar-se no lugar do animal para refletir sobre o que ele conseguiria ver na caixa. A conclusão de Tegmark foi intrigante: segundo a interpretação de muitos mundos, em diversas versões ele morreria, mas sempre haveria universos nos quais viveria, e em alguns deles ele até seria imortal.
Cinco anos depois, Tegmark avançou mais um pouco nessa hipótese e elaborou uma classificação em quatro partes para os universos paralelos. De acordo com ele, os de tipo I estão além da vista de nosso universo, mas possuem as mesmas propriedades cosmológicas. Os de tipo II, nascidos logo depois do Big Bang (a grande explosão cósmica que seria a origem de tudo), também estão além da vista do nosso universo, mas suas propriedades cosmológicas podem ser um tanto diferentes.
O tipo III abrange os universos associados à interpretação de muitos mundos. Os universos de tipo IV, por sua vez, podem ter leis da física bem diferentes das que conhecemos.
Hoje em dia, os físicos encaram de formas distintas a noção de universos paralelos. Para alguns, a resposta a essa charada está em alguma variação da interpretação de Copenhague. Outros consideram que a chave está mesmo na interpretação de muitos mundos. Mas o dilema talvez não dure muito tempo, graças a dois fatores: o progresso das experiências, que captam dados cada vez mais sensíveis sobre o reino subatômico, e aplicações tecnológicas dessa área da física, como os chamados computadores quânticos (computadores muitíssimo mais potentes que os atuais, pois conseguiriam trabalhar em outros estados além de ligado ou desligado). Avançar nesses terrenos provavelmente levará os físicos a decifrar o enigma dos mundos paralelos e da própria física quântica.
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A teoria quântica
Os átomos e a forma como eles interagem com a luz foram a base da mais surpreendente das teorias da física. Ao estudar a emissão de calor e luz de um objeto quente, o físico alemão Max Planck propôs que a luz é liberada em "pacotes", denominados fótons. Em outras situações, porém, a luz se comporta como uma onda, sem "pacotes". Como definir a luz, então: ela é onda ou partícula? Segundo a teoria quântica, a definição correta é: onda e partícula. Portanto, coisas que normalmente vemos como partículas ou objetos sólidos - o pão consumido de manhã ou o veículo que leva você ao trabalho, por exemplo - também possuem um comportamento de onda em sua natureza. Pela teoria quântica, qualquer coisa pode ser descrita como onda.

Universos em colisão O que veio antes do Big Bang, a explosão que teria dado início ao nosso universo? Em 2001, dois físicos, o sul-africano Neil Turok, da Universidade de Cambridge (Grã-Bretanha), e o norte-americano Paul Steinhardt, da Universidade de Princeton (Estados Unidos), deram uma resposta ousada a essa pergunta: segundo eles, o Big Bang foi o resultado de um choque de dois universos paralelos. Cada universo poderia ser comparado a uma membrana achatada e infinita flutuando em um espaço multidimensional; ocasionalmente, a gravidade atrai uma membrana vizinha e os dois universos se deslocam velozmente até colidir, liberando uma imensa quantidade de energia que originou o nosso universo. Além de criar o cosmos, o Big Bang impulsionaria os dois universos que colidiram rumo a direções opostas do hiperespaço.
A teoria, que recebeu o nome de "universo ecpirótico" (do grego ekpyrosis, "incêndio desastroso"), explica de forma satisfatória o padrão de irregularidades observado pelos astrônomos na profusão de radiações de micro-ondas encontrada no nosso universo. Antes do universo ecpirótico, os cientistas atribuíam esse padrão a um período de rápida expansão no início da história do universo, chamado "inflação".
Fonte:http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/ciencia/universos-paralelos

quinta-feira, 6 de março de 2014

A VELHICE COMEÇA AOS 27 ANOS,SEGUNDO CIENTISTAS ? VEJA POR QUE !

A velhice começa aos 27

O cérebro declina muito mais rápido do que você imagina



Aos 27 anos de idade, você ainda é jovem. Seu coração está zerado, a pele quase perfeita e os músculos não doem. Mas, no seu cérebro, a decadência já começou. Os neurônios ainda estão lá, mas as conexões entre eles (as sinapses) começaram a piorar. E isso afeta várias habilidades mentais. A primeira a ir embora é a inteligência espacial: sua capacidade de desenhar objetos e visualizá-los mentalmente. Funções mais primordiais, como o raciocínio e a memória, também perdem força rapidamente - e já estão bem mais fracas quando as pessoas chegam aos 30 anos de idade [veja no quadro ao lado]. Essas são as conclusões de um estudo gigantesco, que foi realizado pela Universidade da Virgínia e mediu as habilidades cognitivas de 2 mil pessoas de várias faixas etárias. Você pode achar que ainda é muito jovem para ficar gagá. Mas a natureza não. "Do ponto de vista evolutivo, por volta dessa idade você já deveria ter se reproduzido. E, por isso, já estaria chegando a hora de se aposentar", explica o neurologista Paulo Henrique Bertolucci, da Unifesp. Afinal, o homem das cavernas não vivia muito mais que 30 anos. E seu cérebro é idêntico ao dele. Mas não se desespere. Os cientistas também descobriram que algumas habilidades, como a verbal, continuam crescendo até os 60 anos. E aprender coisas novas, aumentando o número de informações no cérebro, compensa parcialmente as perdas cognitivas. A velhice mental existe. Mas ela é só uma coisa da sua cabeça.

O que você já perdeu (ou logo vai perder)
Quando uma pessoa completa 30 anos, o cérebro já apresenta uma sensível queda de desempenho

Memória - -17%

Velocidade mental - -27,3%

Raciocínio lógico - -37,5%

Inteligência espacial - -50%
 
Fonte:http://super.abril.com.br/ciencia/velhice-comeca-aos-27-619292.shtml?

sábado, 7 de dezembro de 2013

O PODER DA INTUIÇÃO

 

Foto: Getty Images


Ela é um dos mistérios mais impenetráveis da natureza humana. Mas está longe de ser uma lenda: a intuição não só existe como é essencial para a nossa vida. E as decisões motivadas por ela podem ser melhores que as mais racionais. Saiba como usar essa ferramenta do cérebro.

O rapaz da câmera pede que Júlio Rasec fale alguma coisa. Júlio está de partida para Portugal. O sujeito que filma, um amigo, quer registrar os últimos momentos dele no Brasil. Mas Júlio não quer papo. Está angustiado. Só diz para a câmera: "Esta noite eu sonhei com um negócio assim... Parecia que o avião caía..." Júlio era tecladista do Mamonas Assassinas. Doze horas depois dessa gravação, em 2 de março de 1996, o Learjet que levava a banda bateu na serra da Cantareira, perto de São Paulo.

Outro caso: Cida Moraes, participante do Big Brother em 2002, tinha uma irmã com câncer. Numa manhã, dentro da casa do BBB, Cida começa a ouvir vozes na cabeça dela. Entende aquilo como a irmã chamando por ela. Horas depois a produção avisa Cida que a irmã acaba de morrer. Sua intuição, como a de Júlio, parecia passar uma mensagem.

 

A intuição humana é um fenômeno tão bizarro quanto comum. Quem nunca sentiu aquele comichão na boca do estômago dizendo "tem alguma coisa aí"? Mesmo os casos em que não há tragédia no meio não são menos assustadores. Existem pessoas cuja intuição é tão poderosa que elas parecem capazes de ler a mente das pessoas. Não só das pessoas: o psicólogo americano Silvan Tomkins, por exemplo, enriqueceu apostando em cavalos porque, segundo ele, sabia se um animal poderia vencer "só de olhar a expressão no rosto dele". Mas e aí? Tudo isso é real? A intuição é mesmo capaz de ler mentes? E de prever o futuro? A resposta é contraintuitiva.

Mas o que é intuição, afinal de contas? Grosso modo, dá para dizer que existem 3 tipos bem diferentes. O 1º é aquilo de saber o que outra pessoa está sentindo sem fazer força. É "ler a mente" dos outros. O 2º tipo de intuição é o que tem a ver com a experiência: você pratica tanto alguma coisa que não precisa mais pensar para fazê-la - tipo trocar as marchas do carro. Só que algumas pessoas aprendem a fazer coisas bem menos banais. Quase sobrenaturais, na verdade. O 3º tipo é o mais polêmico. É o daquela intuição do Júlio do Mamonas e da Cida do BBB: a capacidade de prever o futuro.

Então vamos começar por esse, claro. Do ponto de vista científico, nós temos premonições o tempo todo. É que prever o futuro pode ser algo tão simples quando saber que, quando um pit bull late para você de dentro de uma garagem com o portão aberto, é sinal de um grande problema pela frente. Nós precisamos desse nível básico 1 de premonição para sobreviver. Mas isso é algo tão automático que ninguém nem chama de "prever o futuro". Premonição para valer é algo mais complexo, como ter certeza de que um avião vai cair, certo? Você sabe disso. Mas seu cérebro não.

Ele trata os problemas simples e os complexos do mesmo jeito. Por exemplo: sua massa cinzenta tem 100% de confiança que, depois de um raio, vai vir o som de um trovão. Ok. E nesses casos, que dependem de leis regulares da natureza, ela acerta sempre. Mas o cérebro é gente como a gente: bastam esses pequenos sucessos que ele se empolga, fica se achando. Aí tenta prever coisas bem mais complexas, como as chances de seu avião sofrer um acidente.

 
Claro que ele não tem nenhuma competência para isso. Mas acha que tem. Então, num dia em que você estiver indo para o aeroporto e sentir que não deve embarcar, lembre-se: é que seu cérebro ficou computando o risco de o avião cair e, desta vez, concluiu que, sim, se você entrar na aeronave, acabou.

Só que tem uma coisa: se você não der ouvido a ele, embarcar e nada acontecer, a premonição errada vai para o lixo da mente junto com bilhões de outros erros de avaliação que o cérebro faz o tempo todo. E fica tudo por isso mesmo.

Já se você ficou com tanto medo que achou melhor não viajar e o avião acabou caindo, a certeza de que a previsão estava certa será total. Até por isso as histórias de premonições nunca param: houve 51 acidentes com aviões comerciais em 2009. Se só um dos passageiros que deveriam estar nesses voos não embarcou por medo, temos um caso praticamente comprovado de premonição. Ou seja: a chance de que haja coincidência não é nada desprezível. E vale a mesma coisa no caso de quem prevê a morte de uma pessoa querida. A Cida do BBB sabia que a irmã estava doente. Havia uma preocupação natural. E mais: da mesma forma que o cérebro pode dizer que o avião vai cair e não tem outro jeito, ele pode dar um tilt e concluir por A + B que uma pessoa vai morrer num determinado dia. Isso é o que explica o caso de Cida.

Mas o lado puramente ilusório da intuição acaba aí. O que vamos ver daqui para a frente são fatos reais, ligados àqueles outros dois tipos de intuição. E, justamente por serem fatos reais, concretos, são os que mais assustam.

Superpoderes do cérebro

Victor Braden percebeu que acontecia algo estranho toda vez que ele assistia a uma partida de tênis: viu que sabia quando um tenista ia cometer dupla falta. No jogo, para quem não sabe, o atleta tem duas chances de sacar. Então pode soltar o braço na 1ª e, se a bola for na rede ou para fora, parte para a 2ª tentativa. Dupla falta é quando ele erra nesta última. Bom, Victor percebeu que era só o tenista jogar a bolinha para cima, na fração de segundo entre o movimento de saque e o toque na bola, ele podia dizer "Putz, dupla falta!" que não tinha erro: o tenista perdia o saque. Nosso vidente aqui é um bem-sucedido treinador de tênis. Mas isso não parecia o suficiente para justificar tal desempenho. Duplas faltas são raras. Um jogador profissional pode sacar centenas de vezes e cometer só 3 ou 4 delas. "Cheguei a ficar com medo. De cada 20 palpites eu estava acertando 20!", disse Braden ao jornalista Malcom Gladwell (que narrou essa história em seu livro Blink, sobre intuição).

Que tipo de sutilezas de movimento Braden observava para diagnosticar um saque defeituoso antes que ele acontecesse? Ele não tem como responder. Simplesmente sabe se o tenista vai acertar ou não. E ele não é um caso isolado. Esse mesmo instinto guiou 6 especialistas diferentes em arte antiga quando eles viram o que estava sendo propagandeado como uma obra-prima da escultura grega. Era a estátua de um jovem nu supostamente datada do século 6 a.C. pela qual o Museu J. Paul Getty, nos EUA, tinha pago US$ 10 milhões. Análises conduzidas pelo geólogo Stanley Margolis, da Universidade da Califórnia, revelaram que a estátua estava recoberta por uma fina camada mineral, que só poderia ter sido formada ao longo de centenas de anos, ou mesmo milênios, de envelhecimento do mármore. Mas os especialistas bateram o pé: algo lhes dizia que a estátua era falsa. Eles não sabiam dizer exatamente por quê. Mas tinham uma sensação firme de que a estátua era falsa. Quem estava certo, a análise do geólogo ou o olhômetro instantâneo dos especialistas? O olhômetro. Pouco a pouco, investigações conduzidas pelo museu (depois que ele já tinha desembolsado a dinheirama para adquirir a estátua, infelizmente) mostraram, entre outras coisas, que os certificados de autenticidade da obra tinham sido falsificados; que uma escultura bem parecida com ela tinha vindo da oficina de um falsificador em Roma; e que a suposta cobertura mineral antiga podia ser produzida em dois meses, com a ajuda de bolor de batata. Pois é. A intuição se mostrou mais racional que a razão.

O que Braden e os especialistas em arte sentem é aquele outro tipo de intuição: o que melhora com a experiência sem que a gente se dê conta. Tudo de forma inconsciente.

O psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia, compara essa habilidade ao piloto automático das aeronaves. "A mente trabalha melhor relegando ao inconsciente uma boa parcela do pensamento racional, assim como um jato de passageiros consegue voar com pouca intervenção do piloto."

Alimentar essa máquina inconsciente é simples. Se você joga tênis, pode ir acumulando tantas informações sobre o jogo ao longo dos anos a ponto de, um dia, prever se um tenista vai cometer dupla falta sem pensar um segundo.

Um experimento da Universidade de Iowa conseguiu flagar esse processo de aprendizado inconsciente no momento em que ele acontecia.

O experimento envolvia 4 maços de cartas, dois azuis e dois vermelhos. A missão dos voluntários da brincadeira era ir virando as cartas ao acaso: dependendo do que aparecia nelas, a pessoa ganhava ou perdia pequenas quantias em dólares. A sacanagem embutida na experiência é que as cartas vermelhas ofereciam um ou outro prêmio bacana, mas na maioria das vezes correspondiam a grandes penalidades, que fariam o jogador ficar sem nada se ele insistisse em virá-las. O bom mesmo era virar só as cartas azuis, que sempre traziam um prêmio considerável e, no máximo, penalidades suaves. O grupo de Iowa queria saber com que velocidade os jogadores perceberiam a maldade e passariam a preferir as cartas azuis. É aqui que a coisa fica maluca. Após virar, em média, umas 50 cartas, os participantes já passavam a evitar quase sempre os maços vermelhos. Mas eles não sabiam dizer o motivo. Eles só conseguiam explicar por que preferiam os maços azuis quando o número de cartas viradas chegava a 80. Para entender melhor o que se passava na cabeça dos participantes, os cientistas mediram suas reações fisiológicas. Então plugaram os sujeitos numa máquina que mede a produção de suor nas glândulas que as pessoas têm na palma das mãos.

Ora, como sabe qualquer pessoa que já tenha passado por uma entrevista de emprego, é comum que as mãos fiquem molhadas de suor quando estamos nervosos, um indicador clássico de estresse. Acontece que, em torno da 10ª carta virada - umas 40 cartas, portanto, antes de as pessoas conseguirem verbalizar a razão de seu desconforto -, o suadouro nas mãos ligado ao estresse já se manifestava diante do maço de cartas vermelhas.

Uma regra inconsciente já tinha se apoderado do sistema nervoso dos participantes sem que eles soubessem. A intuição dizia para eles tomarem a atitude certa antes que a parte racional do cérebro soubesse o que estava acontecendo. Intuição 1 x 0 razão. E não é só no baralho que isso acontece, claro. Essa mesma lógica irracional pode determinar se um casamento vai dar certo ou não.

A equipe do psicólogo e terapeuta de casais John Gottman desenvolveu o que poderíamos considerar uma versão mais sofisticada do experimento das cartas. Foi um processo bem mais trabalhoso: ao longo de décadas, Gottman e companhia observaram e filmaram 3 mil casais em conversas supérfluas, sobre qualquer tema do relacionamento deles que tivesse desembocado em alguma discordância - o novo cachorro da casa, por exemplo.

Só para garantir a correlação entre o que era dito e as reações automáticas do organismo (muito menos mentirosas que as palavras), marido e mulher também eram plugados a medidores de batimentos cardíacos, temperatura da pele e produção de suor. Os pesquisadores da Universidade de Washington logo perceberam que apenas 4 indicadores eram suficientes para prever o fracasso de um relacionamento. Gottman apelidou esses indicadores de Quatro Cavaleiros (por analogia com os do Apocalipse): ficar na defensiva, dificultar a discussão, crítica e desprezo.

"Desses, no entanto, o desprezo de longe é o mais importante", afirma Paul Bloom, psicólogo da Universidade Yale (EUA) que adota a classificação proposta por Gottman. "A sentença de morte de um casamento não é quando o casal briga muito, nem mesmo quando eles parecem se odiar, mas quando há desprezo recorrente", diz Bloom. Pequenos sinais dessa emoção negativa em conversas, como rápidas viradas de olhos, especialmente se aparecerem com frequência, são marcas tão claras de que a coisa vai mal que a equipe de Gottman já está conseguindo índices de previsão próximos a 90% analisando apenas 3 minutos de conversas em vídeo.

Para Gottman e seus colegas, o fato de que essas pequenas amostragens de conversas são o suficiente para prever o futuro de um casamento sugere que os relacionamentos possuem uma espécie de "pulso" ou "assinatura" constante, que tende a se repetir ao longo do tempo. Portanto, bastaria conseguir captar esse "pulso" de forma mais ou menos instantânea para saber o que vai acontecer no longo prazo. Se alguém recém-separado diz algo como "Intuí na lua de mel que o nosso casamento não daria certo", é que o cérebro dele, ou dela, pescou essas assinaturas sem pensar.

O mesmo fenômeno detectado nos casais está presente em outras formas de percepção ultrarrápida. Se você achou que 3 minutos é pouco tempo para intuir alguma coisa, precisa conhecer um estudo da psicóloga Nalini Ambady, da Universidade Tufts. Ela concluiu que dois segundos é o suficiente para que a sua intuição seja capaz de tomar decisões. E acertar. Nalini mostrou para voluntários uma série de vídeos de dois segundos, cada um com um professor dando aula. O objetivo dos participantes era prever quais mestres seriam bem avaliados pelos próprios alunos e quais não. Note bem: os alunos tinham 6 meses de aula com o sujeito para dar seu parecer. Os voluntários, só dois segundos. E o que aconteceu? Os voluntários previram tudo certinho.

Não foi o único experimento assim. Em outro, Nalini colocou um vídeo mostrando vários cirurgiões. Alguns tinham sido processados por clientes. A tarefa dos voluntários era descobrir quais, enquanto eles falavam. Para complicar, a psicóloga usou um software que remove do vídeo as frequências da fala humana. Os voluntários só conseguiam perceber a entonação das vozes. E acertaram também!

Parece absurdo, mas você ainda não viu nada. Às vezes basta algo tão sutil quanto o movimento de um único músculo do rosto para você criar uma primeira impressão de alguém. E, como a primeira é a que fica, melhor prestar atenção na nossa próxima parte.

A verdade está na cara

Basta engatar uma conversa com alguém para um turbilhão inconsciente invadir sua cabeça. É a sua mente tentando descobrir o que o outro está pensando e sentindo de verdade. Por exemplo: se você conhece duas pessoas em um dia, pode muito bem ficar com impressões completamente opostas de cada uma, mesmo que o teor das conversas tenha sido exatamente o mesmo. Uma pode parecer simpática e a outra falsa. Isso acontece porque a comunicação verbal não vale nada para o seu inconsciente. O que ele capta são as expressões faciais do outro. Se uma daquelas pessoas riu durante a conversa, mas sem mover os olhos, seu cérebro vai saber que aquilo é uma expressão forjada. Você pode nem perceber que viu um sorriso de mentira. Mas seu cérebro percebe - e isso vai afetar o julgamento que você faz do interlocutor. A análise de expressões faciais é tão instintiva que, se você cutuca um bebê que está na dele, brincando, ele vai olhar no seu rosto para saber se você é uma ameaça. E, se você simular que é uma ameaça, fazendo uma careta, por exemplo, ele vai dar logo seu sinal de desaprovação. Nada é mais amedrontador para um ser que nasce sabendo ler expressões do que um monte de músculos distorcidos na face. Apesar de fundamental, isso de ler a mente dos outros a partir de expressões sutis do rosto é uma ciência pouco estudada. Quase tudo o que se sabe disso vem do trabalho de dois cientistas: Silvan Tomkins, aquele psicólogo de Princeton que dizia saber ler as expressões dos cavalos, e Paul Ekman, seu pupilo, hoje professor aposentado da Universidade da Califórnia em São Francisco. Os dois, por sinal, servem de inspiração para o Dr. Carl Lightman, protagonista da série Lie to Me. Se você já assistiu, conhece o principal trabalho de Ekman: a descoberta das microexpressões. Ele catalogou, uma a uma, cerca de 3 mil combinações de movimentos musculares do rosto. O resultado foi um mapa quase completo das expressões humanas. Mas o principal veio depois. Após estudar horas e horas de vídeo de milhares de pessoas, ele percebeu a presença constante de movimentos faciais que duram uma fração de segundo. Eram movimentos correspondentes a emoções que, pelo visto, as pessoas estudadas estavam tentando ocultar. Alguém simulando bom humor, por exemplo, poderia mostrar muito brevemente os lábios estreitados que caracterizam uma expressão de raiva. A mera existência das microexpressões significa que nossos instintos podem ser capazes de ler a mente dos outros de forma muito mais complexa do que detectar sorrisos falsos. Tomkins que o diga. Ele tinha ido visitar Ekman em seu laboratório enquanto ele estudava as expressões de nativos de Papua-Nova Guiné. Algumas imagens eram da tribo fore, um povo bem pacífico. As outras eram dos kukukuku, um grupo guerreiro e sodomita, que obrigava os jovens da tribo a fazer sexo com mais velhos. Tomkins não sabia de nada disso quando começou a ver as imagens no laboratório. Mas então olhou para uma foto dos fore e disse: "Hum... Esse povo me parece muito educado e gentil". Então apontou para a de um kukukuku: "Este outro é violento, e estou vendo evidências de homossexualidade". Ekman ficou de queixo caído. Quando perguntou como Tomkins tinha adivinhado, o mestre só apontou para pequenas rugas e protuberâncias que caracterizavam as expressões no rosto dos fotografados. Era tudo o que o psicólogo precisava para entrar na mente deles.

Tomkins é um fenômeno, claro. Mas isso só significa que algumas pessoas sabem ler microexpressões melhor do que outras. Você mesmo pode ser um mestre nato nisso e não saber. Mas, se você tem certeza de que não é, não há nada perdido. Do mesmo jeito que um especialista em tênis aprende a ler todos os movimentos dos jogadores, com bastante treino você pode perceber expressões que passavam batido e melhorar sua capacidade intuitiva (e dá para começar com o jogo que você viu ao longo desta reportagem). Mas, mesmo que você fique bom nisso, é melhor usar com cuidado.

O próprio Ekman faz uma ressalva importante: a presença de microexpressões serve apenas para indicar que a pessoa está reprimindo certas emoções. Não é suficiente, portanto, para revelar o porquê dos sentimentos conflitantes. Uma cara de raiva disfarçada (veja no jogo) não significa automaticamente que a pessoa está brava com você. Pode ser por qualquer outro motivo. E isso você não tem como saber de forma intuitiva, claro. Outro problema de seguir as intuições cegamente: somos preconceituosos. Mesmo quando achamos que não. Quer ver? Então responda rápido: qual cidade é mais ao norte no planeta? Lisboa ou Toronto? A alternativa certa é a cidade portuguesa, não a canadense. Mas as imagens-clichê do Canadá sempre cheio de neve enganam a intuição.

Um experimento de Keith Payne, psicólogo da Universidade da Carolina do Norte, mostra uma face mais sombria da mesma coisa. Payne colocava os participantes diante da tela de um computador. Aí aparecia rapidamente um rosto branco ou negro. Depois surgia na tela um desses dois objetos: ou uma chave inglesa ou um revólver. Tudo num piscar de olhos. E as pessoas tinham que dizer o que viram. O resultado? Elas identificavam mais rápido o revólver quando a imagem dele ele era precedida por um rosto negro do que por um branco. Payne, então, colocou os voluntários sob pressão: tinham de dar a resposta em meio segundo. Aí muitos passaram a dizer que a chave inglesa era um revólver quando ela aparecia depois do personagem negro. A única maneira de diminuir o preconceito inconsciente nas respostas era dar mais tempo para o pessoal determinar, com calma, o que tinha visto.

E, ei, isso vale para todo mundo: reflita bem antes de achar que viu sinal de um dos "Quatro Cavaleiros" dos relacionamentos no rosto de quem você ama ou de concluir que o sorriso do seu vizinho quando ele dá bom-dia não é verdadeiro. Pensar de menos, afinal, pode ser tão perigoso quanto pensar demais.



por Reinaldo José Lopes

 
Para saber mais

O Poder da Intuição
Gerd Gigerenzer, Best Seller, 2008.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

AYAHUASCA COMO OPÇÃO ESPIRITUAL : A HORA DO RITUAL DO CHÁ








AYAHUASCA COMO OPÇÃO ESPIRITUAL

  


ayahuascapor: DR. RÉGIS ALAIN BARBIER

As plantas sagradas, como um remédio, podem nos auxiliar a conscientizar um senso ampliado de identidade, provendo o estímulo necessário para a superação do hábito de restringir a nossa consciência de "eu" ao mundo das abstrações ou ao dos desejos egóico e pueris.

Com certeza, uma poção com a Ayahuasca, (assim como a seiva de outras plantas tradicionais e de uso ritualista), é capaz de proporcionar o auxílio que precisamos para redirecionar o nosso destino; orientar a humanidade em direção à realização do homo-sapiens verdadeiro: um ser ponderado, compreensivo, compassivo, tolerante, flexível e integrado.

O caminho dos vegetalistas, ou ayahuasqueiros, por ser mais intenso que muitas outras disciplinas, pode parecer de alguma maneira mais fácil por proporcionar um contato mais precoce e mais intenso com o numinoso. Tal contato pode inspirar compromisso e abrir as portas para mais força e criatividade, mais graça, para superar os conteúdos incômodos.

Certamente, com um investimento enorme de tempo e esforço, estas mesmas expe-riências podem ser obtidas pelos que dominam a ciência da meditação. Para investigadores cuja prática espiritual deve ser integrada com a necessidade de trabalhar e prover ao seu sustento, o uso adequado dessa tecnologia milenar pode tornar o pro-cesso da realização exeqüível. Para os que, mergulhados nessa nossa “sociedade de competitividade e consumo”, encontram o tempo para meditar essas experiências poderão vir a representar um salto qualitativo nas suas práticas.

Porém, a Ayahuasca não é um caminho para todos; substâncias psicoativas não são pontes, ou atalhos, apenas vias mais rápidas. A escolha deve ser baseada no conhecimento amplo dos fatores envolvidos. Esclarecer-se requer a resolução de materiais e conflitos inconscientes; aqueles que aspiram a essa realização precisam avaliar a sua disposição e coragem, decidir o compasso e a intensidade com a qual desejam se encontrar com essa psicodinâmica, essa “purgação” ou purificação na linguagem dos adeptos da Ayahuasca.

A Ayahuasca revela que o conhecimento que temos do mundo, da existência, é um estado ou processo psicossomático. A experiência mística realiza a descrição cientifica da relação ecológica de todos os seres, do campo quântico e unificado; essa experiência implica desapego e transformação, isto é a drenagem do conceito de “ego”.

Se a nossa intenção é sincera, se temos coragem e generosidade o suficiente, então vale a pena estudar todas as técnicas úteis para a realização espiritual - a Ayahuasca, utilizada com motivação certa, habilidade e integridade, pode contribuir muito para o alívio do sofrimento, dando acesso à sabedoria e visão necessária para a união mística.

AYAHUASCA COMO INSTRUMENTO DE AUTO-OBSERVAÇÃO:

A percepção, habitualmente embotada, permite apenas aprender e acessar uma fração distorcida de realidade; uma realidade revestida de projeções pessoais e pressuposições. A propriedade central dos “enteógenos” ou “psico-integradores” é com certeza levantar o véu, amplificando a experiência.

A Ayahuasca amplifica a capacidade psicossomática de responder a gradações mais sutis de estímulos além de muitas vezes integrar as diversas faculdades sensoriais em processos sinestésicos. Esse efeito de aumentar a capacidade de experienciar, de avaliar e apreciar por si mesmo, é central para a compreensão do seu significado.

Esta amplificação, como uma lupa, permite uma (re)visitação intensiva e absorta dos conteúdos mentais - recordações, idéias, fantasias, pensamentos, emoções, medos, esperanças, sensações em gerais. Na dependência da ética e valores morais atuais do indivíduo, além de influir na intensidade e no foco das percepções, a experiência pode motivar a re-significação dos conteúdos sendo observados. Valores morais e atitudes são revistas.

Aqui temos uma tecnologia que alterando a composição bioquímica do instrumento e dos meios de processamento da informação, permite a inativação temporária dos filtros culturais e psicodinâmicos que nos bastidores da mente agem determinando, formatando e hierarquizando, nossas experiências quotidianas.

Pode se de fato aprender muito, crescer e liberar energia psíquica revendo, transformando, eliminando, aceitando e se reconciliando com conteúdos incômodos.

COMO CAMINHO INICIÁTICO: SINCERIDADE E CORAGEM:

A função de uma substância com a Ayahuasca é muitas vezes mal entendida. Muitos pensam que pelo fato de terem tido experiências maravilhosas, já obtiveram as respostas e foram de alguma maneira transformados. Em alguns aspectos foram, mas muitos descobrem a realidade de que existem muitas camadas de condicionamento e ignorância a separar a mente superficial do núcleo do ser.

A Ayahuasca e outras plantas instrutoras podem levar à transposição dessas barreiras permitindo o acesso à nossa essência, necessitando, contudo persistência e comprometimento no sentido de mudar e remover os velhos hábitos que tendem a reaparecer.

Muitos imaginam que a repetição da experiência irá manter um estado de lucidez e visão, de fato pode, mas freqüentemente, a mudança requer trabalho duro e esforço dedicado; algumas vezes a experiência transforma, outras vezes mostra o possível, aponta o caminho, a responsabilidade de implementar as mudanças nos pertence.

Para o investigador espiritual sério, assim como para os que buscam conhecimento verdadeiro, a característica mais importante é a honestidade. Isto significa a coragem para olhar para o que se apresenta no processo, pela habilidade de admitir as suas falhas quando se tornam aparentes e pela determinação de mudar os seus comportamentos em função do que se revela.

O contéudo e natureza das experiências que essa substância induz não são, portanto, produtos artificiais resultantes da sua interação farmacológica com o cérebro, mas expressões autênticas da psique que revela seu funcionamento e potenciais em níveis inacessíveis no estado ordinário de consciência.

Para aquele cuja intenção real é instalar uma transformação psico-espiritual, a Ayahuasca pode funcionar como catalisador natural a revelar e liberar intuições e conhecimentos oriundos das facetas mais elevadas do ser, permitindo o acesso a uma sabedoria fundamental relativa ao universo e à nossa posição como indivíduo.

O grande valor da Ayahuasca, trazidos à nossa atenção pelas sociedades indígenas, é que ela dissolve os limites da mente inconsciente; ela dá acessos aos conteúdos reprimidos e esquecidos. Ela possibilita o reconhecimento das configurações universais da psique, os arquétipos de humanidade, junto com um leque mais abrangente de conhecimentos e maneiras de conscientizar, até eventualmente a vivência dos diversos aspectos da união mística.

COMO CAMINHO INICIÁTICO: TOLERÂNCIA:

Uma substância como a Ayahuasca oferece opções terapêuticas já que tende a dissolver a fragmentação e a compartimentagem interna, a revelar mecanismos de defesas diversos como “projeção”, “negação” ou “deslocamento”, possibilitando o esclarecimento dos sectarismos e pontos de vistos intransigentes.

Na medida em que o indivíduo consegue ver as coisas de uma maneira não distorcida, vendo claramente não apenas o seu passado mais também a presunção e cegueira da sua própria cultura e grupos de referencias, ele necessita, além de tolerar a decepção e o sofrimento, superar sentimentos de desamparo.

Nem sempre é fácil ter de ver e aceitar que não somos assim tão vítimas, mas sim responsáveis pelas nossas vidas; aceitar ser capaz, reconhecer o seu potencial e a responsabilidade que isso requer implica coragem e determinação. Podemos até recusar crer que fazemos jus a muita beleza e alegria, bem estar profundo, sem nada ter de pagar além de ser o que já se é; apenas sendo o que já somos. O gerenciamento emocional produtivo dessa reavaliação, a reorganização psíquica, implica um grau suficiente de equilíbrio e bom senso para que se tomam atitudes judiciosas sem precipitações.

TRIANGULAÇÃO - AYAHUASCA COMO UM FENÔMENO TRÍPLICE:

A PESSOA, O AMBIENTE E O CHÁ.

Sobre a influência da Ayahuasca, a intensidade dos estímulos - tanto por amplificação e enriquecimento de detalhes e pontos de vistas perceptuais quanto pelo maior influxos de dados perceptivos - aumenta consideravelmente as possibilidades de respostas à experiência. Devido a essa magnificação da percepção, uma atenção especial tem se dado à qualidade dos estímulos provenientes tanto do indivíduo quanto do meio onde o chá esta sendo utilizado.

A hipótese denominada em inglês de “set and setting” foi inicialmente formulada por Timothy Leary nos anos 60 no âmbito das pesquisas iniciais com agentes psicoativos e foi rapidamente aceita pelos demais pesquisadores da área. A teoria geral determina que o conteúdo de uma experiência com substância psicoativa é uma resultante da interação de três fatores básicos.

Os fatores essenciais são: o “set”, que traduzo como sendo o “fator pessoal”, isto é aquele que o individuo traz consigo, os seus conteúdos (intenção, atitudes, personalidade, humor, etc.); o “setting” ou “fator ambiental” corresponde a todos os elementos externos ativos e capazes de influir a experiência (fatores interpessoais, social, ambiental, o âmbito). A substancia em si, o “Chá” age como um gatilho, ou catalisador, a conectar e por em interação os fatores citados numa dinâmica especifica, criativa e intensa.

É evidentemente impossível definir qual dos fatores é o mais importante tanto quanto é impossível dizer qual o lado mais essencial de um triângulo isóscele. Contudo “o âmbito” é a vertente da experiência que pode ser programada, estudada, ensaiada e cuidadosamente preparada para um melhor proveito.

TRIANGULAÇÃO - O FATOR PESSOAL:

Como a Ayahuasca revela o nosso lado oculto, abrindo as portas do inconsciente numa linguagem psicológica, um enorme leque de opções e qualidade de experiência se apresenta. Na realidade essa poção psicoativa revela e liberta o que está dentro da pessoa, tornando a mente manifesta (ou seja, efeito “psicodélico” como “manifestação da mente”). A mente se torna sujeita a observação e, por isso mesmo, a transformação.

A fluidez e a qualidade do deslocamento do ayahuasqueiro nesse labirinto psíquico depende antes do tudo do fator pessoal, do “conteúdo” que inclui os elementos do inconsciente pessoal, o registro da experiência de vida, assim como os mecanismos condicionantes em operação – recatos e defesas – a determinar a liberdade de opções, a qualidade, riqueza e legitimidade das interpretações, enfim, os principais desafios do indivíduo.

Outro aspecto importante do conteúdo consiste nos valores e critérios pessoais; atitudes, aspirações, expectação, intenção e ética. Estes elementos irão influenciar a atração da atenção e determinarão o modo da pessoa lidar com o material psíquico revelado.

TRIANGULAÇÃO - O FATOR AMBIENTAL:

O fator ambiental se refere aos fatores externos ao indivíduo e capazes de influenciar a experiência: o lugar onde o chá é servido; a atmosfera do ponto de vista cultural, espiritual e emocional; como o indivíduo está sendo atendido; a quantidade de pessoas envolvidas; o tipo de liderança aplicada na experiência são alguns dos fatores a considerar.

Normalmente o indivíduo se torna bastante impressionável quando sofre os efeitos de substâncias como a Ayahuasca, estado decorrente da magnificação perceptual já mencionada. Esse efeito acoplado como o aumento da perspicácia, capacidade metafórica e habilidade em gerar psico-associações criativas, alimenta o lado noético e o imaginário da experiência.

É obvio que essa “impressionabilidade” não significa que o ayahuasqueiro é mais facilmente suscetível de influência do que o homem comum ou do que os fiéis das religiões de massas, por exemplo. O grau de credulidade, ingenuidade, ou então de cepticismo (ver nota) de um indivíduo reflete opções cognitivas, filosóficas, assim como traços de personalidade profundos e estáveis, até mesmo inerentes, que não serão transbordados pela “força e influência” do chá. Ao contrário, são justamente esses conteúdos profundos do indivíduo – inclusive tendências básicas como credulidade ou cepticismo - que determinam a maneira de significar a experiência.

O tipo e da qualidade do sistema de crenças, da visão, pertinente ao âmbito social no qual a experiência irá ocorrer assim como o tipo de liderança e dinâmica dos trabalhos são fatores essenciais, capazes de influenciar em grande parte a harmonia e tranqüilidade da experiência; possuir uma boa descrição do âmbito onde se irá comungar a poção é um fator importante. Uma liderança não muito interventiva e tranqüila favorece o acesso e estudo dos conteúdos pessoais, o exame e integração da sua própria trajetória, o encontro de caminhos e conceitos próprios.

Um facilitador precisa ser paciente, empático, familiarizado com os processos da experiência; ele pode ser muito efetivo sabendo refletir os pontos essenciais, fazer perguntas, observações aparentemente casuais. Cantos, músicas, atitudes e até mesmo orientações diretas bem dosadas, podem ser importante para facilitar uma experiência suave e rica.

O ayahuasqueiro descobrirá que dividindo possíveis dificuldades com companheiros receptivos e compreensivos poderá gerar claridade e conforto. Finalmente, e na maioria das vezes, o melhor guia é a nossa própria consciência e esse processo interno não deve ser interferido a não ser quando solicitado.

Rituais inspiradores, universais e holísticos, ambientes naturais, atividades espontâneas e criativas, permitem a focalização da atenção para regiões psíquicas interessantes.

Os próprios conteúdos, junto com a configuração de ambiente, a qualidade do chá, a própria intenção e a do grupo, configuram um processo singular, uma “gestalt”, um “ser maior”, o próprio eu transpessoal da experiência. Reconhecer e ter certeza de estar em sintonia e harmonia com esse “ser maior” gerado pelo evento é a chave de uma experiência de grupo bem sucedida.

(Nota) Cepticismo: atitude ou doutrina segundo a qual o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento.

TRIANGULAÇÃO - O CHÁ:

Investigações demonstram a variabilidade do chá na sua composição química. Fatores dependentes, das plantas e lugar de origem, da hora da colheita, do preparo (quantidade relativa das duas plantas, grau do apuro e tipo de água utilizada - fatores com pH, teor mineral da água) todos influenciam a qualidade do chá e, portanto os seus efeitos. A quantidade utilizada durante uma cerimônia é também um fator decisivo.

Quantidades habituais ou moderadas permitem uma observação melhor dos seus próprios conteúdos, um estudo detalhado da sua própria psicodinâmica. Quantidades maiores são necessárias para se “viajar no astral” na linguagem dos usuários de algumas seitas. A utilização de grandes quantidades de chá, acima de 300 mililitros, numa única tomada é mais bem aproveitada em ambiente especifico, mais reservados com uma supervisão adequada e favorece o tipo de vivência descritas na fenomenologia como “experiências místicas”.

Com uma prática adequada e um considerável trabalho sobre si mesmo é possível se chegar aos mesmos resultados com dosagens menores.

INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA - REAÇÕES:
Como as defesas do ego são desafiadas, sentimentos reprimidos e recordações afloram na consciência, podendo criar algum nível de ansiedade - uma reação semelhante ao enfrentado em situações inusitadas ou de desfecho incerto como praticar esportes radicais, participar de competições esportivas ou ainda se submeter a alguma prova. Uma experiência desse tipo é geralmente muito proveitosa por ensinar mais.

Reações adversas mais sérias ainda não foram descritas com o uso da Ayahuasca, em parte porque o chá tem sido utilizado com critério e responsabilidade, em doses adequadas, e que a Ayahuasca não tem sido promovido como sendo remédio e solução para curar as crises emocionais de pessoas seriamente transtornadas.

Triagens para eliminar os prováveis candidatos a reações adversas, como as personalidades esquizóides e pre-psicóticas, os neuróticos com instabilidade de identidade e níveis altos de ansiedades, os usuários de drogas e medicamentos psico-ativos possibilitam a realização de Cerimônias tranqüilas, seguras, criativas e de inestimável valor espirituais.

INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA - EFEITOS PRÁTICOS:

Experiências como as proporcionadas pela Ayahuasca são por natureza transcendental, transpessoais, porque alargam a experiência e visão da realidade, diminuem o império do ego sobre a personalidade, facilitam uma mudança de valores.

Torna-se evidente que a utilização de uma substância como a Ayahuasca é mais útil dentro de um contexto e de uma disciplina tendo como objetivo o crescimento e a evo-lução espiritual, um programa chamando atenção para os valores éticos e morais fundamentais. Uma disciplina adequada fornece um corpo de ética capaz de apoiar as mudanças requeridas, clarificando os objetivos, mantém a mente focada e aberta para o aprofundamento crescente da experiência.

É o indivíduo, a sua intenção que determinam se a experiência será mística e religiosa, evolutiva ou não. Bastante preparo é necessário para se chegar a uma experiência mística, mesmo usando Ayahuasca e um trabalho de integração efetivo é necessário para que a experiência seja de fato transformadora. Se o estado de consciência ampliado induzido pela experiência conduz ou não a mudanças positivas e duradouras, depende da intenção e dedicação do usuário.

Uma visão, mesmo rápida, de uma realidade maior pode mudar a vida de uma pessoa se ela resolve integrar essa visão à sua realidade.

Receber uma luz não é igual a aplicar essa luz no dia a dia; não há conexão inerente entre uma experiência mística de unidade e a expressão ou manifestação daquela unidade na vida cotidiana. Este ponto é talvez óbvio, contudo freqüentemente esquecido por aqueles que debatem se, em princípio, um agente psicoativo pode ou não ter valor no âmbito da busca espiritual. Qualquer que seja a fonte ou a origem da iluminação, as revelações só poderão ter efeitos práticos com a permissão e dedicação do individuo.

Autor: Dr. Régis Alain Barbier.
fonte:
http://www.panhuasca.org.br/

* nota:

Nossa gratidão ao nosso amigo Dr. Régis pelo excelente trabalho que vem realizando e pelos esclarecimentos que com grande maestria nos brinda no texto acima, que reflete com grande clareza nossa própria visão da Bendita Abuelita Ayahuasca e de suas propriedades maravilhosas em abrir os mistérios do Divino dentro de nosso coração.

Que Deus lhe abençoe querido Régis. Ahô!

Luis Pereira



http://www.universomistico.org/s/opcao-espiritual.html
 
 
A HORA DO CHÁ - Santo-Daime
 

A HORA DO CHÁ


A ayahuasca conquista adeptos de outras religiões e vive seu momento de maior expansão e reconhecimento. Mas a bebida sagrada segue polêmica, no Brasil como e em outros países
Revista Galileu - Pablo Nogueira

ritual
Comunhão de bens: noite de ritual do grupo Beija-Flor de Lótus, que combina elementos do Daime e do Hinduísmo
O que têm em comum o ofício de baiana do acarajé, o frevo pernambucano e a festa do Círio de Nazaré? Os três são "patrimônio cultural imaterial brasileiro", título criado pelo governo em 2000 com o objetivo de auxiliar na preservação de tradições populares. Apenas 12 manifestações culturais receberam esse status, sendo que Bumba Meu Boi e o queijo Minas aguardam na fila. Em maio surgiu um novo candidato: o uso religioso do chá ayahuasca, mais conhecido como Daime.
O pedido foi feito durante uma visita oficial do ministro da Cultura ao Acre, e tinha como porta-vozes políticos, religiosos e o governador do estado, Binho Marques (PT-AC). A reação de Gilberto Gil foi positiva: "espero que possamos celebrar, em breve, o registro do ayahuasca como patrimônio cultural da nação brasileira". A imprensa nacional rapidamente repercutiu as palavras do ministro. Alguns veículos apenas registraram a iniciativa, mas outros questionaram a idéia, na linha "bebida alucinógena pode virar símbolo nacional", incitando comentários pró e contra internet afora.

ayahuasca
Tudo somado, o episódio mostra duas coisas: 1) Após quase oito décadas de existência, as religiões ayahuasqueiras vivem seu melhor momento. Assimiladas por outras fés e reconhecidas pelas autoridades, vêem seu número de adeptos subir 10% ao ano; 2) Todo esse ciclo de expansão é ignorado pela maior parte da sociedade brasileira, que continua desconfiando do uso de uma substância psicoativa de forma religiosa.
deputada perpétua almeida
Discurso: "o uso religioso da ayahuasca tem apelo mundial, que é a preservação da floresta", diz a deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC). Abaixo ela posa em um pé de mariri (ou jagube), uma das plantas que compõem o chá
Para tentar reverter esse quadro realizou-se em maio, em Brasília, o II Congresso Internacional da Hoasca. O encontro foi organizado pela União do Vegetal, que junto com o Santo Daime e a Barquinha, é uma das três religiões ayahuasqueiras brasileiras. Também participaram membros das outras duas correntes, e o congresso tornou-se uma defesa da religiosidade baseada no chá. "Essa é a religião da floresta", disse no evento a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC). "Queremos que o mundo reconheça nossa religiosidade, porque o Brasil não conhece a Amazônia." De formação católica, foi ela que iniciou a articulação do pedido de reconhecimento entregue a Gil, embora jamais tenha experimentado a bebida.
A mais conhecida das três religiões do chá é o Santo Daime. A menos conhecida é a Barquinha, que praticamente não se expandiu para fora do Acre, onde surgiu. A que tem mais fiéis é a União do Vegetal (UDV). De estrutura centralizada e hierárquica, foi criada em 1961, em Rondônia, pelo baiano José Gabriel da Costa (1922-1971), chamado Mestre Gabriel. Sua doutrina é cristã e reencarnacionista, e eles chamam o chá de "hoasca" ou de "vegetal".

congresso internacional da hoasca
Legitimidade: palestrantes dos EUA e do Canadá fazem videoconferência no II Congresso Internacional de Hoasca, realizado em Brasília para divulgar as religiões do chá
A UDV manteve um ritmo lento de crescimento durante boa parte de sua história e em 1998 contava com pouco mais de 6 mil adeptos. Uma década depois, esse total está próximo dos 15 mil, sendo que alguns participam de "núcleos" e "distribuições" (como chamam seus templos) sediados na Europa e nos Estados Unidos. O antropólogo Sérgio Brissac, que pesquisou a UDV em sua dissertação de mestrado no Museu Nacional, diz que o crescimento da religião está ligado ao próprio "espírito do tempo" que vivemos. "Frente ao relativismo contemporâneo, a dinâmica do ritual e a doutrina da UDV apresentam a alternativa de um conjunto sólido de verdades. Além disso, há uma busca por uma experiência intensa do sagrado, e a vivência com a ayahuasca, unida ao ritual e aos ensinamentos, oferece essa oportunidade", diz. Ele não aponta um perfil definido de freqüentador, mas nas grandes cidades predominam pessoas de classe média e formação universitária.
garrafa de ayahuasca
Conservação: o chá é guardado em geladeiras, geralmente em garrafas PET, e servido à temperatura ambiente. Costuma ser servido em copos de vidro, e alguns ritos envolvem mais de uma dose


Expansão e exposição

 A UDV tem capitaneado boa parte dos esforços para que o uso religioso do chá seja visto como algo legítimo também fora do Brasil. O caso mais controverso ocorreu nos Estados Unidos. Entre 1999 e 2006 a UDV enfrentou uma longa batalha jurídica a fim de preservar o direito de consumir o ayahuasca, que estava sendo contestado pelo governo americano. Durante esse período, os membros mantiveram suas práticas rituais (veja quadro "Uma sessão da união"), mas bebendo água em vez de chá.
Em janeiro de 2006 a Suprema Corte anunciou um veredicto favorável ao grupo, e o ayahuasca voltou a ser consumido. À frente da batalha pela legalização estava Jeffrey Brofman, representante da UDV nos Estados Unidos. Ele recusou entrevistas a veículos como New York Times e CBS na época do veredicto e falou a Galileu sobre sua participação no Congresso em Brasília. De origem judaica, conheceu grupos indígenas que fazem o uso religioso de psicoativos antes de chegar à UDV, em 1990. Hoje ele comanda 180 adeptos nos EUA.
A penetração do Santo Daime no exterior é bem maior. Estados Unidos (incluíndo Havaí), Canadá, Espanha, França, Itália, Suíça, Irlanda, Alemanha Inglaterra, Holanda e Japão têm grupos ativos. Como explica o antropólogo Alberto Groisman, da UFSC, o processo se iniciou com a visita de estrangeiros à região amazônica, nos anos 1970, e continuou na década seguinte, quando os daimistas brasileiros passaram a ser convidados a viajar para realizar rituais e ensinar os fundamentos da religião.
Desse intercâmbio foram se formando grupos estáveis que se reúnem para praticar rituais como o bailado (ver quadro "Um bailado no Santo Daime") e cantar hinos religiosos que versam, entre outras coisas, sobre a espiritualidade da floresta amazônica. Sabe-se que eles atuam em diferentes condições legais, dependendo do país. Na Inglaterra os trabalhos são realizados secretamente, a fim de não chamar a atenção das autoridades. Na Espanha, dois daimistas brasileiros foram presos em 2000, acusados de tráfico de drogas, mas hoje a religião está inscrita no cadastro nacional de entidades religiosas.
Nos EUA, os daimistas pleiteiam os mesmos direitos já outorgados à UDV. Na França, após uma vitória judicial inicial em 2005, o governo incluiu os princípios ativos do chá na lista de estupefacientes, tornando ilegal seu uso religioso ou não. "Cada país reagiu à chegada do Daime conforme o estabelecido por suas normas nacionais de controle de drogas, aplicada conforme a demanda que aparecia", explica Groisman.
Um bom exemplo desta mudança de atitude foi o caso da Holanda. Em 1999, dois daimistas foram presos devido ao uso religioso da ayahuasca. Dois anos depois, após um processo judicial que envolveu a consulta a médicos, psicólogos, teólogos e antropólogos, os rituais do Daime foram liberados. Groiman viveu algum tempo na Holanda acompanhando as igrejas daimistas do país. "O que mais me impressionou foi a dedicação dos holandeses em seguirem as formas e conteúdos tradicionais do Santo Daime. Eles cantavam os hinos em português, muitos estavam aprendendo a língua ."

 Jeffrey Brofman
Gringo no chá: Jeffrey Brofman, desde 1992 representante da União do Vegeral nos Estados Unidos, diz que lá o chá reúne "médicos, psicólogos, advogados, gente de diferentes perfis profissionais, sociais e étnicos"


Chá em transe

 Mas em certas "igrejas" (como são chamados os templos do Daime) a mistura já é norma. "Acho que o Daime caminha para se tornar cada vez mais eclético", diz a antropóloga Beatriz Labate, autora de quatro livros sobre o uso religioso da ayahuasca e de outras substâncias psicoativas ". No exterior há igrejas que adotam influência hare krishna e de terapias alternativas. Em Assis, na Itália, há uma influência forte da mitologia local, ligada a São Francisco."
Aqui no Brasil algo semelhante aconteceu a partir da popularização do uso religioso da ayahuasca nas grandes cidades do Sudeste. É cada vez maior o número de grupos religiosos que se baseiam no uso do chá mas incorporam elementos diferentes daqueles propostos pelos fundadores das três religiões. "Em 2000, pesquisando para o mestrado, encontrei 30 grupos em São Paulo; hoje deve haver pelo menos o dobro", diz a antropóloga.
Talvez o exemplo mais conhecido dessa nova geração de usuários religiosos seja o umbandaime, tendência que, como o próprio nome sugere, busca uma aproximação com a religiosidade afro-brasileira. O terapeuta Antônio Marques Alves Júnior defendeu em 2007 um mestrado na PUC-SP sobre a aproximação entre Daime e umbanda. Alves ressalta que, embora o fundador do Daime, o maranhense Raimundo Irineu Serra (1892-1971), chamado Mestre Irineu, fosse negro, a religião que ele criou não dava importância ao chamado transe mediúnico, comum nas religiões afro. "Talvez ele tenha deixado a mediunidade de lado intencionalmente, para escapar da perseguição religiosa que a própria umbanda sofria no inicio do século 20", especula.
Irineu morreu sem apontar um sucessor. Após sua morte, um de seus discípulos, Sebastião Mota Melo, chamado por daimistas de Padrinho Sebastião, passou a liderar uma comunidade batizada de Colônia dos Cinco Mil, perto de Rio Branco. Entre 1974 e 1980 esse grupo se tornou um pólo de difusão do Daime para fora da Amazônia.
Ao chegar ao Rio de janeiro, no início dos anos 1980, o Daime atraiu o interesse de praticantes de umbanda, inclusive mães-de-santo. A partir desse trânsito, surgiu no Rio uma variante da religião. Nela, além dos trabalhos "tradicionais" de Daime, havia espaço também para outros rituais, onde o consumo do chá se ligava a "receber entidades". O próprio Padrinho Tião, um ex-espírita, se interessou por essa vertente, e seu filho, Alfredo melo, construiu rituais que exploravam a conexão entre daime e umbanda.
"Muitos adeptos criticam essa aproximação, dizendo que isso não é Daime", explica Alves, ele mesmo um "aproximador". Nos anos 1990, ele abriu uma igreja daimista chamada de Reino do Sol, que se tornou referência desse tipo de sincretismo em São Paulo. O hino oficial da instituição diz que "O Daime é o sol da minha vida/e a umbanda é sua filha querida", e lá realizam-se, além dos trabalhos "oficiais" do Daime, rituais chamados de giras, com até 200 participantes, dos quais as pessoas participam descalças e vestidas de branco, e nos quais o ayahuasca facilitaria o transe mediúnico.
Às terças-feiras, o grupo de Alves realiza um ritual no qual, assim como acontece nos centros espíritas, alguns indivíduos entram em transe e recebem "entidades", que dão consultas grátis à população como exercício de caridade. Antes de entrar em transe os médiuns podem beber pequena quantidade de ayahuasca. E durante as duas horas que dura o trabalho, um grupo de músicos canta suavemente hinos que misturam os imaginários da umbanda e do Daime. Ao final, todos os participantes formam uma roda e bailam e cantam hinos de inspiração daimista, terminando o ritual com a oração de São Francisco. "Acho que essa nossa síntese é um trabalho inovador. Sou umbandista tanto quando sou daimista. Pertenço a toda religião que não se considera a única", diz Alves.

UMA SESSÃO DA UNIÃO
Conheça as etapas do ritual seguido pelos adeptos da União do Vegetal
união do vegetal
• Os adeptos usam uniforme na maioria das sessões. O homem à esquerda (quadro no canto superior esq.) está vestido como um mestre, nome dado aos sacerdotes

1>>>A pessoa encarregada de conduzir o ritual é chamada de mestre dirigente. Às 20h, ele se põe em pé e anuncia o início da sessão. Todos ficam de pé. A partir de agora, só ele pode falar livremente: os outros devem pedir permissão a ele para falar2>>>As pessoas formam uma fila no sentido anti-horário e param ao lado do arco para receber o chá. Cada um recebe o chá diretamente do mestre dirigente. Eles seguram o copo com a mão direita,voltam a seus lugares e permanecem de pé
3>>>O mestre dirigente fala algumas palavras rituais e todos bebem o chá. Os mais graduados hierarquicamente bebem primeiro. Depois, todos sentam-se em silencio
4>>>Enquanto se espera que os efeitos do chá comecem a se manifestar, escuta-se a leitura dos regulamentos internos da UDV
5>>>Após a leitura, o mestre dirigente entoa alguns cânticos, que visam colocá-lo num estado de inspiração espiritual
6>>>O mestre percorre a mesa no sentido anti-horário perguntando à alguns se elas estão sentindo os efeitos espirituais do chá, chamados de "força" e "luz"
7>>>A partir daí, os presentes fazem perguntas sobre a doutrina, que são respondidas pelo mestre dirigente. Quem quiser, pode beber uma segunda dose do chá às 22h. O rito se encerra às 00h15

mestre irineu
Sincretismo: à esquerda, momento do passe em ritual de umbandaime, que como diz o nome, mistura umbanda e Santo Daime criado por Mestre Irineu, representado à direita


Passagem para a Índia

 Outro exemplo representativo de novo grupo é o Beija Flor de Lótus, que tem sua sede nos arredores de São Paulo. Ele é dirigido pelo músico e terapeuta Chandra Lacombe. Lá os rituais combinam alguns elementos do Santo Daime, como orações cristãs, uso da ayahuasca e o canto de hinos, com outros originários da espiritualidade indiana, tais como mantras, posturas meditativas e música hindu. Um dos hinos que o músico compôs diz assim: "É o sol e a Lua/ É Jagube e Rainha/ É o shiva e a shakti/ A divina alquimia". "Jagube" e "Rainha" são os nomes que os daimistas dão às plantas a partir das quais se faz o chá, e Shiva e Shakti são divivindades da Índia.
Chandra começou a desenvolver o que ele chama de "linha unificada" dez anos atrás. Até então, era apenas membro de um outro grupo independente, no qual também se buscava aproximar o hinduísmo do Daime -ou seja, ele já é a segunda geração desse tipo de sincretismo no Brasil. Atualmente sua comunidade reúne 60 membros regulares. "A maior parte são pessoas que estavam insatisfeitas com a doutrina do Daime. Queriam mais espaço para abordar sua individualidade."
Já os que chegam ao grupo vindos das seitas hinduístas tradicionais encontram a experiência mística associada ao chá. "Se consumido num contexto ritualístico, ele é mais do que simplesmente um alterador de consciência. Acreditamos que o mesmo estado poderia ser alcançado pela meditação, mas a pessoa precisaria de muito esforço e disciplina para chegar aos níveis rapidamente atingidos com a bebida."
Ao longo dos seus anos como líder de grupo, Chandra viajou por diversos países coordenando rituais, onde formou um grupo regular de adeptos. Alguns deles vêm ao Brasil para matar a saudade dos trabalhos no Beija Flor de Lótus. É o caso de John, pseudônimo usado por um terapeuta de um país escandinavo que prefere não se identificar, com medo de que o governo de seu país descubra que o ayahuasca está circulando por lá. Ele diz adorar "o Santo Daime tradicional", e vê o trabalho de Chandra como uma parte legítima dele: "Se o Mestre Irineu está incluído, para mim também é Daime". Discussões doutrinárias à parte, ele ressalta a importância da experiência com o chá: "os momentos de êxtase são a parte fácil. Difícil é quando você se confronta com a sua sombra. É aí que o Daime é importante para mim, e pode ser para outras pessoas. Às vezes penso que essa bebida poderia curar o mundo."

UM BAILADO NO SANTO DAIME
Neste ritual, os participantes cantam e dançam e tem lugar marcado
bailado do santo daime
1>>>Homens e mulheres entram por portas separadas e se posicionam obedecendo a alguns critérios. Num grupo ficam os homens casados e mais velhos. No outro, os jovens casados e visitantes, e na próxima ala os jovens solteiros. As mulheres serão distribuídas da mesma forma, de modo que haja um espelhamento: os casados de frente para as casadas etc.2>>>O padrinho é quem conduz todo o trabalho da noite. Ele fica na primeira fila, na extremidade direita. É ele quem diz as palavras que iniciam o ritual, e também as que o concluem
3>>>Depois de se anunciar o início do ritual, homens e mulheres formam duas filas para receber o chá. Durante o bailado, que pode durar mais de 12 horas, bebe-se normalmente uma dose a cada hora e meia ou duas horas
4>>>Os ritos de bailado acontecem em datas específicas do ano. Em cada um canta-se um conjunto específico de músicas. Essas músicas são chamados hinos. Numa noite, pode-se cantar 200 hinos ou mais. Além de cantar, os fiéis também dançam, realizando simultaneamente o mesmo passo
5>>>Os hinos são cantados com o acompanhamento de instrumentos instrumentos como violões e acordeões. Os músicos sentam-se ao redor de uma mesa. Sua referência são as puxadoras, que dominam o hinário e vão "puxando" as canções.
6>>>Chama-se fiscal o adepto que tem a função de colaborar com o andamento do ritual. Eles monitoram as filas, impedindo que o movimento das pessoas abra claros nas fileiras.
Também prestam assistência às pessoas que deixam o salão.
• Em toda a igreja há uma cruz de caracala, símbolo da base cristão do Daime

• Nos rituais de bailado usa-se uma roupa conhecida como farda branca. A coroa das mulheres evoca a Rainha da Floresta, a entidade que apareceu ao fundador do Daime. Nas mãos carregam um instrumento musical chamado maracá

altar
Para todos: o altar da Beija-Flor de Lótus é abençoado mestres hindus, mestre Irineu e Nossa Senhora


Ainda polêmico

 Segundo o psiquiatra Wilson Gonzaga, são justamente os pequenos grupos independentes que preocupam as autoridades que regulamentam o uso religioso do ayahuasca no país. Ele é membro do grupo de trabalho interdisciplinar do Conselho Nacional Antidrogas, criado em 2004 para estabelecer princípios éticos a serem seguidos por todas as entidades usuárias do chá.
Na estrutura da comissão foram indicados representantes da União do Vegetal, das diferentes linhas de Daime e dos independentes, e Gonzaga entrou como representante desses últimos. "Os grandes, como a UDV ou o Daime, possuem mecanismos fiscalizatórios para controlar a maneira como o chá é utilizado. Já essas organizações novas, oriundas das maiores, não tem". Ele acredita que a tendência é que o número de grupos se reduza. "Estamos vivendo um momento de boom, mas com o tempo muitos grupos desaparecerão. Ficarão os que realmente fazem uso ritualístico. Só continuará bebendo ayahuasca quem souber porque está fazendo isso", diz.
O fato é que uma das conseqüências desse boom é, justamente, a idéia de que o uso religioso da ayahuasca possa ser considerado patrimônio cultural brasileiro. Para Beatriz Labate, o que se passa agora com as religiões que usam o chá pode ser comparado ao que já aconteceu, por exemplo, com a capoeira. "Durante boa parte do século 20 a capoeira era marginalizada. Aos poucos foi entrando nas academias, nas escolas e hoje é um ícone do Brasil."
Ela diz que a percepção dessa religiosidade como um fator de identidade cultural é mais forte na Amazônia e particularmente no Acre, onde os comerciais de TV que estimulam a visitação ao estado exibem cenas de daimistas bailando. "Essas religiões foram perseguidas de várias formas por décadas. Se hoje o governador do Acre e o ministro da Cultura estão se manifestando favoravelmente a elas, é porque ocorreu a expansão desses grupos. Ninguém ia dar a menor bola se fosse apenas um fenômeno regional."

"MUITO DENTRO DE MIM MESMA"
A monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista, conta como foi sua experiência com o chá ayahuasca

monja coen
Coen-xistência: a monja budista aprovou a experiência com o chá sagrado
"Um membro da minha comunidade fazia parte um grupo religioso que tomava chá de ayahuasca e me convidou para uma reunião festiva de Natal, onde se podiam levar convidados de fora. Convidei duas alunas minhas e fomos as três. Era um sítio pertinho aqui de São Paulo, nós chegamos já era noite. Fomos recebidos por uma senhora quer era líder deste grupo. Sentia-se muito a presença dela, a força dela como liderança.Havia muitas crianças, adolescentes, famílias, e isso me surpreendeu. Entramos numa sala muito grande, muito cheia de pessoas, e nos deram copinhos com um chá - um chá cor de chá mesmo. Primeiro passaram umas frutas, cada um pegou um pedacinho e depois todos juntos comungamos deste chá, bebemos juntos. Me lembra muito o que nós fazemos no budismo, como as nossas cerimônias de alimentação, de chá. Então isso foi muito bonito pra mim, né?
Nos sentamos e havia muitas músicas que eram muito agradáveis, mas a minha preocupação era à líder do grupo. Como eu sou líder de uma comunidade, me interessava ver como ela liderava. Como era Natal era tudo relacionado a Jesus. Havia uma fotografia de um senhor [Mestre Gabriel] da Amazônia, alguma coisa assim, que seria o fundador desta ordem, um senhor de bigodinho assim. O nome dele era falado algumas vezes e agradecido, como nós fazemos na nossa linhagem para os nossos monges fundadores.
Algumas pessoas vomitavam e eu já tinha ouvido falar sobre isso, eu tinha ficado um pouco preocupada. Uma das meninas que foi comigo começou a passar mal; até que conseguimos acalmá-la e colocá-la numa cama ali num cantinho e ela dormiu. Mas me deu muita impressão de que ela ficou incomodada com o que estava acontecendo por um profundo desconhecimento. Essa moça sempre passava o Natal comigo e eu falei 'então vamos juntas', não te largar sozinha na noite de Natal. E foi um erro, ela não estava preparada. A outra não, ficou sentadinha ali do meu lado.
Uma hora eu me senti mal, tive um momento que eu falei 'nossa' e levantei. Eu sou muito metida, cheguei dizendo 'não eu não vou vomitar, imagina'. Mas não adianta: tá todo mundo vomitando do seu lado, é muito difícil, né? Eu vomitei um pouco, não foi muito não. E aí eu fiquei do lado de fora... e isto foi agradável.
Me perguntaram se eu não tive visões. Na verdade não, não que eu me lembre. Senti uma sensação de vastidão e conexão com a natureza, de bem estar com ela e com todos os seus elementos. Fiquei pensando: porque que nós fazemos isto numa sala fechada, por que isto não é feito ao ar livre? Porque o ar e a natureza iam te abrir os braços! Talvez porque fosse frio, né? Há aqueles que dizem isto não é bom, isto não presta, isto tira do estado normal de consciência. O que é o estado normal de consciência? O que seria nossa consciência verdadeira?
Passado isso eu voltei para a sala. A música continuava, já era mais no final da noite, estavam em um momento de perguntas. As pessoas pediam licença e diziam: 'mestra eu posso fazer uma pergunta'. Se ela dissesse sim, fazia, se ela dissesse não, não fazia. E aí ela vai respondendo. E esta parte para mim foi mais interessante, porque parece um pouquinho com o que nós fazemos no templo budista, quando o mestre que tem mais sabedoria pode conduzir os novatos na vida. Comentei com o pessoa lá que isso de passar ensinamentos pode ser feito em qualquer religião. O que eu notei, dentro da minha visão que é um pouco parcial porque eu só vi um dia, é que a mestra conduziu todo este ensinamento dentro da visão cristã. A palavra Jesus é usada inúmeras vezes. Era noite de Natal, eu não sei se é sempre assim.
Na viagem de volta, a minha amiga que passou mal estava muito bravinha. Ficava no banco de trás dizendo 'nossa que absurdo, alguém podia morrer numa cerimônia dessas'. A outra não, estava meio assim sem saber. E pra mim foi uma coisa muito pé-no-chão.
Até comentei com o meu superior, que se interessou e ficou de ir. Estava no meu universo, naquilo que eu conheço. Eu estava ligada, não desligada. Não sei se isto é assim pra todo mundo, mas me deu uma sensação de estar muito em mim mesma, e muito capaz de fazer coisas. Foi muito interessante."

 Fonte: Revista Galileuhttp://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG83915-7942-203-1,00-A+HORA+DO+CHA.html
http://www.universomistico.org/s/a-hora-do-cha.html